Ao Espelho...

domingo, janeiro 29, 2006

Insónia



Tenho sono, não durmo, sinto e não sei em que sentir.

Sou uma sensação sem pessoa correspondente,
Uma abstracção de auto-consciência sem de quê,
Salvo o necessário para sentir consciência,
Salvo - sei lá salvo o quê...

Álvaro de Campos

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Merda, sou lúcido!

É no meio da febre que tudo entra em rebuliço...tudo ferve. A doença, o escroto.
Calor e frio. Quero-te, mas longe...para depois desejar outra vez que estejas perto e assim sucessivamente. Prendendo os gestos e retendo as emoções, racionalizando tudo, vou-te tendo.
Vou tendo aquilo que queres dar. O que será de tudo isto agora? Que futuro?

Quero ouvir uma música que ainda não existe; provar um sabor que desconheço. Quero chorar sem motivo, só pelo prazer de sentir rolar as lágrimas quentes pela face. Desejo observar as luzes da cidade por entre a cortina de água que cai do céu.
Vivo uma melancolia masoquista, devorando imagens que se sucedem na minha mente a uma velocidade inconcebível. Coisas, momentos a que atribuí um significado pessoal, deformando-os por vezes.
Ofereço-te o meu ombro, o meu abraço..não posso mais.

"Merda, sou lúcido!" (Álvaro de Campos)

terça-feira, janeiro 24, 2006



Lembro-me do outro. O outro que era eu.
Agora não passa de um contorno impreciso e desfocado.
Acena-me novamente, quer vender-me o que era antes meu.
Não quero. Não posso. Ele aproveita-se da indecisão momentânea.
Não quero perder o que tanto levou a conseguir, pelo simples facto de que já não consigo imaginar as coisas de outra maneira.
Quero, mas tenho medo. Não devia ter, já passa...
Não, não vou mais experimentar a velha sensação de insatisfação e incompreensão.
O outro insiste em vender-me a velha segurança...coitado, não reparou ainda que já saltei há muito noutra direcção.
Penso em tudo e em nada, com pessoas pelo meio. Vou-me deixando ir, perdido em mim.
Agora sei que, mesmo que perca, o caminho até aqui já valeu a pena.
Sem dúvida.

sábado, janeiro 14, 2006

Je ne sais plus qui je suis

Acordei e pensei: "Sinto-me estranhamente leve. Quase consigo voar."
Ao mesmo tempo estava pregado à cama, não conseguia levantar-me. As memórias recentes deslizavam indefinidamente à minha frente. A cabeça, outrora cheia de pensamentos, repousava invulgarmente calma. Os sonhos recentes ainda não se haviam dissipado por completo. Sinto-me vazio, mas ao mesmo tempo cheio por dentro, de algo que ainda não sei o quê. É preciso cuidado, apalpar bem o terreno antes de avançar. Ainda é cedo. O meu reflexo no espelho olha-me de uma maneira estranha, uma expressão quase de gozo.
Sinto-me perdido...ou a encontrar-me...